
1º de dezembro de 2025 – Gisella Saldena
Teija Potenze é mestre em filologia espanhola e intérprete-tradutora. Finlandesa de origem, sua trajetória pessoal e profissional está marcada por um forte vínculo com o universo latino.
Como argentina vivendo na Finlândia, há meses eu refletia sobre a construção das identidades migrantes e das famílias multiculturais, sobre a força da linguagem e os desafios que enfrentamos ao nos comunicar em um país de raízes tão diferentes das nossas. Foi nesse contexto que conheci Teija durante a 19ª edição do Cinemaissi, o Festival de Cinema Latino-Americano realizado anualmente em Helsinque há duas décadas. Ao ouvir seu inconfundível sotaque argentino, aproximei-me com a emoção de quem reencontra a família depois de muito tempo. Perguntei se era argentina. Ela sorriu. Não disse «não» de imediato, e percebi que havia nela uma conexão profunda com o país do mate e do tango.
Teija Pontenze é finlandesa, mestre em filologia espanhola e intérprete-tradutora. Dirige há mais de 30 anos sua empresa Espanjan Kielipalvelu. Ao longo da carreira, colaborou com personalidades de destaque da Finlândia, de Portugal e do mundo hispânico, entre eles José Saramago e, mais recentemente a escritora argentina Camila Sosa Villada em sua visita a Helsinque.
Seu marido argentino, Jaime, falecido em 2017, foi cofundador do Cinemaissi e impulsionador de inúmeros projetos culturais no país. Juntos, compartilharam mais de três décadas de vida, adotaram dois filhos na Colômbia e construíram uma família multicultural com raízes latinas e finlandesas.
Primeiros passos rumo ao mundo latino
«Há muito tempo vivi dois anos em Milão, trabalhando como au pair em uma família italiana intelectual. Nos fins de semana, íamos ao cinema e a concertos, enquanto a nona cuidava da criança. Confesso que não entendia muito dos filmes, alguns me pareciam horríveis porque eram dublados, mas aqueles anos foram uma preparação para a cultura latina. Além disso, estudei latim por três anos no colégio. E, embora nunca tenha planejado minha vida de forma concreta, já havia em mim um interesse pelo mundo latino.»
Ela faz uma pausa e seus olhos sorriem com nostalgia. «Depois conheci meu marido e sempre lhe serei grata por ter me feito parte de seu mundo latino. Graças a ele e aos meus estudos de espanhol, abriu-se para mim um universo completamente diferente do finlandês: um mundo imenso de literatura, música e teatro.»
A importância de lembrar de onde viemos
Em uma manhã ensolarada em Helsinque, o tempo passa entre anedotas que cruzam o oceano em segundos. Falamos sobre a importância de somar e construir a partir da diversidade sem esquecer a própria história.
«É preciso dar valor às raízes, sem ser ultranacionalista, mas é fundamental saber de onde viemos e onde estamos. Depois da morte do meu marido, percebi com alegria que meus círculos latinos não desapareceram. As pessoas que chegaram à minha vida por meio dele tornaram-se também minhas amigas, e vice-versa. Embora fizéssemos muitas coisas separadamente, compartilhávamos experiências e amizades, e isso enriquecia muito nossa vida juntos. Aprender a dar espaço e a compartilhar foi muito valioso para mim.»

Família ampliada e calor humano
Para quem vem da América do Sul e decide viver na Finlândia, uma das primeiras perguntas de familiares e amigos é como conseguimos nos adaptar a um país tão diferente, literalmente do outro lado do mundo, onde geografia e história moldam formas de convivência distintas das nossas. A trajetória de Teija mostra que a integração não apenas é possível, como necessária e reveladora.
«Entre os elementos da cultura latina que considero valiosos e que complementaram a finlandesa, destacaria a forma de levar em conta as pessoas: compartilhar, comunicar-se e esse calor humano que transmitem. Não digo que os finlandeses não o tenham, mas demoramos mais a mostra; somos reservados, guardamos nosso espaço e falamos pouco. Às vezes isso também é bom. Mas temos dificuldade em expressar sentimentos, por exemplo, no luto. Aprender a integrar a abertura e a afetividade dos latinos foi muito enriquecedor para mim.»
Enquanto servimos mais café, refletimos sobre o significado dos abraços, do contato físico e das demonstrações de afeto em cada cultura. «O que realmente me fascina na cultura latina é o conceito de família: não se limita ao núcleo, abrange muito mais. A família latina é ampliada, inclui também os amigos, e isso me parece fascinante. Os latinos que decidiram ficar aqui se adaptaram bem, criaram seu espaço e contribuem com profissionalismo e calor humano. Mantêm sua identidade, mas sabem se ajustar às circunstâncias.»
A final da conversa, despedimo-nos com um abraço caloroso. Saio contente e esperançosa, confiando que a chave está em abrir-se, construir comunidade e aproveitar os aportes que nos ajudam a melhorar ambos os mundos, mesmo nos momentos que parecem irreconciliáveis.
Autora: Gisella Saldena
Tradutora: Adriana Vitorino.