
Enquanto muitos países ainda enfrentam barreiras culturais para o tratamento de transtornos mentais, a Finlândia transformou o combate ao estigma em política pública. A estratégia aposta na divulgação sistemática de informações, campanhas de consientização e incentivo à busca precoce por ajuda especializada.
UMA BREVE HISTÓRIA SOBRE O SURGIMENTO E REFORÇO DE ESTIGMAS
Estudos apontam que parte da produção cinematográfica do século XX contribuiu para a disseminação de estereótipos relacionados às doenças mentais. Parte da indústria cinematográfica explorou representações estereotipadas, frequentemente associando esses personagens à violência ou à instabailidade emocional.
Segundo uma revisão científica publicada na revista Journalism and Media, a mídia desempenha um papel fundamental na formação da percepção pública sobre a saúde mental. Filmes, programas de televisão, livros e redes sociais influenciam a maneira como a sociedade compreende os transtornos, podendo tanto reduzir o estigma quanto reforçar preconceitos já existentes.
Em análise publicada na European Psychiatry, os pesquisadores R.Y. Pavlovic e A.M. Pavlovic observaram que o cinema europeu retratou com frequência pessoas com trasntornos mentais como «perigosas», «instáveis», «assustadoras», contribuindo para a disseminação de estereótipos sociais que associavam a doença mental ao medo, à exclusão e à institucionalização. Ao mesmo tempo, algumas obras passaram a desafiar essas percepções, apresentando visões mais humanas e críticas ao estigma.
A TRAJETÓRIA FINLANDESA NA SAÚDE MENTAL
Segundo a MIELI Mental Health Finland, uma das organizações de saúde mental mais antigas do mundo, fundada em 1897, sua missão original incluía auxiliar pessoas que recebiam alta de hospitais psiquiátricos, combater preconteitos e difundir informações a respeito. A entidade informa ainda que, a partir de 1919, passou a direcionar suas atividades de forma mais intensa para o trabalho de educação e conscientização pública.
COMO A FINLÂNDIA ESCOLHEU LIDAR COM O ESTIGMA ENRAIZADO?
A estratégia finlandesa enfatiza a divulgação de informações sobre saúde mental e os canais de acesso ao atendimento, partindo do princípio de que a informação pública ajuda a reduzir o problema.
Conforme o Ministry of Social Affairs and Health of Finland: » A Estratégia Nacional de Saude mental da Finlândia reconhece oficialmente que o combate ao estigma é parte integrante das políticas de saúde pública e condição necessária para ampliar o acesso ao tratamento e à prevenção dos transtornos mentais.»
Ao longo de mais de um século, organizações civis e autoridades finlandesas vêm tratando a saúde mental como uma questão de informação pública e não de silêncio social. A estratégia adotada pelo país parte do princípio de que reduzir o preconceito é trambém ampliar as possibilidades de prevenção, diagnóstico precoce e acesso ao tratamento.
Referências
CLEMENT, S.; SCHAUMAN, O.; GRAHAM, T.; et al. What is the impact of mental health-related stigma on help-seeking? A systematic review of quantitative and qualitative studies. Psychological Medicine, Cambridge University Press, v. 45, n. 1, p. 11-27, 2015. Disponível em: Psychological Medicine – Cambridge University Press.
PAVLOVIC, R.Y.; PAVLOVIC, A.M. Movies and mental illness stigma: a European cinematic perspective. European Psychiatry. Cambridge University Press. Disponível em: European Psychiatry – Cambridge University Press.
ZHANG, H.; FIRDAUS, A. What Does Media Say about Mental Health: A Literature Review of Media Coverage on Mental Health. Journalism and Media, v. 5, n. 3, p. 967-979, 2024. Disponível em: Journalism and Media – MDPI.
MIELI MENTAL HEALTH FINLAND. Historia. Disponível em: História da MIELI Mental Health Finland. Acesso em: 2 out. 2026.
MINISTRY OF SOCIAL AFFAIRS AND HEALTH OF FINLAND. Mental Health Policy Guidelines. Disponível em: Política Nacional de Saúde Mental da Finlândia. Acesso em: 2 out. 2026.
Por Adriana Vitorino. Pesquisadora independente e autora.